As estrias são marcas comuns que aparecem quando a pele passa por um estiramento rápido, como na gravidez, adolescência ou variações de peso. Embora não sejam um problema médico grave, seu impacto na autoestima e bem-estar emocional é amplamente reconhecido — e por isso, o interesse em tratamentos eficazes continua crescendo.
Nos últimos anos, o Plasma Rico em Plaquetas (PRP) se tornou um dos tratamentos mais comentados para regeneração da pele e melhora estética das estrias, oferecendo uma alternativa natural, baseada na biologia do próprio corpo. Mas o que realmente se sabe sobre sua eficácia? A ciência confirma os resultados?
Neste artigo, reunimos as evidências atuais sobre o PRP no tratamento de estrias, explicando como ele age, seus benefícios e limitações, de forma clara e acessível.
Entendendo as Estrias: Quando a Pele se Rompe por Dentro
A pele humana é formada por três camadas principais: epiderme, derme e hipoderme.
As estrias surgem quando há uma ruptura parcial das fibras elásticas e colágenas da derme, causada por um estiramento além da capacidade natural de resistência da pele (Schuck et al., 2020).
Esse processo leva à desorganização da estrutura dérmica e à formação das conhecidas linhas avermelhadas ou esbranquiçadas.
Com o tempo, as estrias passam de “rubras” (recém-formadas) para “albas” (maduras), tornando-se mais claras e menos responsivas aos tratamentos convencionais.
Fatores hormonais, como o aumento do cortisol, também enfraquecem as fibras da pele, e condições inflamatórias crônicas podem agravar a ruptura do colágeno e da elastina (Oakley & Patel, 2023).

Por que Algumas Pessoas Desenvolvem Mais Estrias que Outras
A genética tem papel fundamental. Polimorfismos em genes que regulam a síntese de colágeno e elastina podem predispor indivíduos ao surgimento de estrias mesmo com variações menores de peso.
Além disso, diferenças raciais — especialmente relacionadas à produção de melanina — influenciam tanto a visibilidade das marcas quanto a forma como a pele cicatriza.
Estudos sugerem que peles com maior teor de melanina podem apresentar estrias menos perceptíveis, mas essa relação ainda precisa ser melhor compreendida (Ongoro et al., 2023).
O Impacto Psicológico: Mais do que uma Questão de Pele
Muitas pessoas relatam sofrimento emocional significativo devido às estrias.
Pesquisas apontam aumento de sintomas de ansiedade, baixa autoestima e insatisfação corporal, especialmente entre mulheres jovens (Rotsztejn et al., 2010).
Por isso, o tratamento das estrias não deve ser visto apenas como uma questão estética, mas também como uma intervenção de bem-estar psicológico.
PRP: A Biotecnologia do Próprio Corpo a Favor da Regeneração
O Plasma Rico em Plaquetas (PRP) é obtido a partir de uma pequena amostra de sangue do próprio paciente.
Após centrifugação, o sangue é separado em camadas, e a fração rica em plaquetas é isolada e reaplicada na pele.
Essas plaquetas contêm fatores de crescimento como PDGF, TGF-β e VEGF — moléculas que estimulam a produção de colágeno, formação de novos vasos sanguíneos e regeneração celular (Oneto & Etulain, 2021).

Como o PRP Atua nas Estrias
A ação do PRP sobre as estrias ocorre por diferentes mecanismos:
- Estimulação da produção de colágeno e elastina — o PRP ativa fibroblastos, promovendo uma matriz dérmica mais firme e elástica.
- Angiogênese aumentada — os fatores de crescimento estimulam a formação de novos vasos sanguíneos, melhorando a oxigenação da pele.
- Reparo tecidual acelerado — o PRP potencializa a regeneração das microlesões dérmicas que formam as estrias.
Esses efeitos se traduzem em melhora da textura, cor e aparência geral da pele, principalmente nas estrias recentes.
Comparando o PRP com Outros Tratamentos
Outras terapias para estrias incluem cremes tópicos, microdermoabrasão, laser fracionado e radiofrequência.
Enquanto esses métodos agem indiretamente (por exemplo, causando microlesões para estimular o colágeno), o PRP atua biologicamente, fornecendo diretamente os fatores regenerativos ao tecido.
Essa diferença pode explicar por que muitos pacientes relatam resultados mais naturais e sustentados com o PRP em relação às abordagens tradicionais (Huang et al., 2022).
O Que Mostram os Estudos Clínicos
As evidências atuais, embora promissoras, ainda são limitadas em número e padronização.
Dois estudos merecem destaque:
- Gamil et al. (2018) compararam PRP e tretinoína tópica (0,05%) em 30 pacientes com estrias distensas. O PRP apresentou melhora significativa na textura e coloração da pele, com maior satisfação dos pacientes e aumento de colágeno nas biópsias histológicas.
👉 Referência: Dermatol Surg. 2018;44(5):697–704 - Ibrahim et al. (2015) compararam PRP e microdermoabrasão. O grupo tratado com PRP obteve melhores resultados clínicos e histológicos, especialmente quando associado à microdermoabrasão combinada.
👉 Referência: J Cosmet Dermatol. 2015;14(4):336–346
Ainda assim, faltam ensaios clínicos maiores e padronizados sobre protocolos, frequência de sessões e tempo de resposta.

Fatores que Influenciam os Resultados
Os resultados do PRP dependem de:
- Tipo e tempo das estrias (as estrias rubras respondem melhor que as albas).
- Quantidade e frequência das sessões.
- Técnica de preparo e aplicação do PRP.
- Condições gerais da pele e idade do paciente.
- Cuidados pós-procedimento (hidratação e proteção solar).
Comunicação e Expectativas Realistas
O PRP não elimina totalmente as estrias, mas melhora significativamente sua aparência e textura.
É essencial que o paciente compreenda que se trata de uma terapia de regeneração gradual, com resultados progressivos ao longo das sessões.
Os efeitos colaterais costumam ser leves — inchaço, vermelhidão e sensibilidade — e desaparecem em poucos dias (Johns Hopkins Medicine, 2024).
Limitações e Considerações de Segurança
Apesar do PRP ser autólogo e seguro, alguns cuidados são necessários:
- Evidências clínicas ainda em consolidação — faltam estudos longitudinais robustos.
- Protocolos variáveis — diferenças no preparo e centrifugação podem alterar os resultados.
- Possíveis reações adversas leves, como hematomas ou sensibilidade local.
Equipamentos e kits aprovados por agências regulatórias, como a FDA, devem ser utilizados para garantir segurança e padronização (Selphyl®, 2023).

Conclusão: O Futuro Regenerativo do Tratamento de Estrias
O PRP representa uma abordagem inovadora e biológica para o tratamento de estrias — estimulando a própria pele a se regenerar de dentro para fora.
Os resultados são mais evidentes em estrias recentes, com melhora significativa na textura, coloração e firmeza da pele.
Embora os estudos ainda sejam iniciais, o consenso entre especialistas é que o PRP oferece um dos maiores potenciais regenerativos dentro da dermatologia estética atual, especialmente quando associado a protocolos combinados (como laser ou microdermoabrasão).
Para profissionais de saúde e estética, compreender as bases científicas e os limites do PRP é essencial para conduzir tratamentos seguros, eficazes e com expectativas realistas.
Referências:
Selphyl. About PRFM. Selphyl, 2023.
Sawetz I. et al. Platelet-rich plasma for striae distensae: What do we know? Int Wound J. 2021;18(3):387–395.
Oakley AM, Patel BC. Striae. StatPearls Publishing; 2023.
Schuck DC. et al. Molecular mechanisms of stretch marks. J Cosmet Dermatol. 2020;19(1):190–198.
Ongoro G. et al. Inclusion in dermatology: Addressing skin tone diversity. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2023;16:3481–3485.
Rotsztejn H. et al. Widespread striae distensae: Clinical cases. Adv Med Sci. 2010;55(2):343–345.
Heitmiller K. et al. PRP for striae distensae: Current insights. J Cosmet Dermatol. 2021;20(2):437–441.
Oneto P., Etulain J. PRP in wound healing applications. Platelets. 2021;32(2):189–199.
Huang Q. et al. Advances in striae treatment modalities. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2022;15:2101–2115.
Gamil HD. et al. PRP vs Tretinoin in striae distensae. Dermatol Surg. 2018;44(5):697–704.
Ibrahim ZA. et al. PRP vs Microdermabrasion in striae treatment. J Cosmet Dermatol. 2015;14(4):336–346.
Johns Hopkins Medicine. Platelet-Rich Plasma (PRP) Injections. 2024.


