Do PRP ao PRF: A Evolução dos Concentrados Plaquetários e a Realidade Clínica Atual
PRP: o começo de tudo, mas com limitações
O PRP (Plasma Rico em Plaquetas) foi o primeiro concentrado plaquetário amplamente utilizado em áreas como ortopedia, medicina estética e odontologia. A técnica consiste em centrifugar o sangue coletado em tubos que contêm anticoagulantes, como o citrato de sódio (tubo azul). Para induzir a coagulação posteriormente, é preciso adicionar um ativador como o cloreto de cálcio — o que exige manipulação complexa e cuidados extras.
Apesar dos bons resultados em algumas áreas, a ANVISA proibiu o uso do PRP na odontologia brasileira, principalmente pela necessidade de manipulação externa do sangue, o que aumenta os riscos e exige ambientes extremamente controlados, como laboratórios farmacêuticos.
Foi nesse cenário que surgiu o PRF (Fibrina Rica em Plaquetas), considerado a segunda geração dos concentrados plaquetários.
O que é PRF e por que ele revolucionou a odontologia?
O PRF (Platelet-Rich Fibrin) foi desenvolvido em 2001 pelos cientistas Dr. Joseph Choukroun e Dr. David Dohan Ehrenfest, na França.
A proposta era simples e inovadora:
- Usar apenas o sangue do paciente,
- Sem anticoagulantes ou aditivos,
- Obtendo um coágulo natural de fibrina, rico em plaquetas e leucócitos.
Esse coágulo funciona como um scaffold biológico que libera lentamente fatores de crescimento, estimulando:
✅ Cicatrização acelerada
✅ Regeneração óssea
✅ Formação de novos tecidos
A grande virada foi justamente sua segurança e fisiologia, atendendo às normas da ANVISA e trazendo mais confiança para a odontologia.
A jornada do PRF: da França para o mundo
No início dos anos 2000, os dois grandes nomes — Dr. Joseph Choukroun e Dr. David Dohan‑Ehrenfest — iniciaram uma revolução na medicina regenerativa ao criar o PRF (Platelet‑Rich Fibrin).
Juntos, eles trabalhavam na empresa Process for PRF, em Nice, França, e em 2001 desenvolveram um protocolo inovador para obter um coágulo de fibrina rico em plaquetas e leucócitos, sem uso de aditivos ou anticoagulantes. Esse método era simples, seguro e eficiente para regeneração tecidual.
Em 2006, publicaram os estudos “Part I & II” que detalhavam todo o processo e mostravam os aspectos biológicos do PRF que hoje conhecemos como o L‑PRF (Leukocyte‑and Platelet‑Rich Fibrin) — o coágulo padrão que libera fatores de crescimento de forma gradual por até 7–14 dias.
Por que Choukroun e Dohan seguiram trilhas distintas?
Com o tempo, Dr. Choukroun manteve e promoveu o protocolo original como o L‑PRF “Choukroun type”, com kits próprios que incluíam centrifuga e tubos específicos. Já Dr. Dohan‑Ehrenfest se concentrou na classificação técnica dos métodos, refinando a terminologia: L‑PRF (C) para o protocolo original, L‑PRF (I/E) para centrífugas Intra-spin/EBA20, e L‑PRF (O) para outros modelos. Essa classificação visa garantir que o protocolo científico continue homogêneo, mesmo com diferentes equipamentos.
A evolução dos protocolos PRF
Os protocolos foram se adaptando para diferentes objetivos clínicos. Veja os principais:
- L-PRF (2001): ~2700 rpm (400–700 g), 10–12 min → coágulo sólido, liberação lenta.
- A-PRF (2014): ~1500 rpm (200 g), 14 min → membranas celulares, liberação mais homogênea.
- A-PRF+ (2016-2017): ~1300 rpm (200 g), 8 min → otimiza proteínas de crescimento, acelera regeneração.
- i-PRF (2017): ~60 g por 2–3 min → forma líquida, usada em injeções ou no preparo do “sticky bone”.
➡️ Cada ajuste de tempo, força G e tipo de tubo define se o PRF será usado como membrana, injetável ou suporte ósseo.
L-PRF vs A-PRF+: Qual a diferença?
Esses são dois protocolos muito utilizados hoje, e entender a diferença entre eles é essencial para profissionais da odontologia e pacientes que buscam tratamentos regenerativos modernos.
| Protocolo | RPM / Força G | Tempo | Características |
|---|---|---|---|
| L-PRF | ~2700 rpm (~700g) | 10–12 min | Coágulo denso, liberação prolongada, ideal para membranas e enxertos |
| A-PRF+ | ~1300 rpm (~200g) | 8 min | Maior retenção celular, liberação mais eficiente de citocinas e proteínas |
🔬 Segundo Miron et al. (2020), o A-PRF+ tem maior concentração de leucócitos e liberação intensa de fatores como VEGF, TGF-β1 e PDGF-BB.

E o tal do buffy coat?
Durante a centrifugação, o sangue se separa em três camadas:
- Hemácias (fundo do tubo)
- Plasma rico em plaquetas (parte superior)
- Buffy coat (faixa intermediária)
É no buffy coat que se concentra a maior parte dos leucócitos, e é por isso que ajustar corretamente a força G da centrifugação é tão importante: um protocolo mal calibrado pode empurrar essas células para baixo ou deixá-las dispersas, afetando a eficácia do PRF.

Sticky Bone: quando o PRF encontra os biomateriais
O Sticky Bone é a mistura do PRF (forma líquida) com partículas de osso, formando um enxerto moldável e altamente bioativo.
Evolução da técnica:
- 1ª geração: I-PRF + membranas picadas → preparo manual, coagulação lenta.
- 2ª geração: I-PRF + membrana inteira → melhora na estrutura.
- 3ª geração: I-PRF + exsudato → viscosidade ideal e maior bioatividade.
- 4ª geração (PomSwing): I-PRF + biomaterial em cuba com agitação circular → pensado para climas frios.
Hoje, a 3ª geração é a mais utilizada em odontologia regenerativa no Brasil.
Mercado e mitos: marca importa?
Um dos maiores equívocos no mercado é acreditar que só se obtém um bom PRF usando centrífugas e tubos “oficiais”. A realidade clínica mostra que o que realmente importa é:
- Ajustar a força G corretamente (RPM adaptado ao raio do rotor),
- Controlar o tempo de centrifugação,
- Usar tubos adequados, mas não necessariamente de vidro ou de marca específica.
Não há evidência científica sólida que comprove superioridade de marcas. Muitas empresas vendem kits completos com preços altos, usando marketing agressivo, mas os resultados reais dependem da técnica e conhecimento do profissional.
Conclusão
O PRF é hoje um dos pilares da odontologia regenerativa moderna, unindo simplicidade, segurança e eficácia clínica.
Do PRP ao Sticky Bone, a evolução mostra que não se trata de marca ou modismo, mas de protocolos bem aplicados que transformam o dia a dia clínico.
Referências:
Dohan DM, Choukroun J, et al. (2006). Platelet-rich fibrin (PRF): uma nova geração de concentrados plaquetários.
Miron RJ, et al. (2020). Evaluation of 24 protocols for the production of platelet-rich fibrin.
Ghanaati S, Miron R, et al. (2014). Advanced PRF: Effects on growth factor release.
“A Critical Review on Platelet-Rich Fibrin (PRF): Molecular Dynamics and Clinical Applications in Dentistry”, disponível em NCBI.



